Introdução
Cada vez mais, o turismo interno (aquele em que se realiza dentro de uma cidade para outra dentro do território nacional ou na mesma Unidade da Federação) vem ganhando um espaço significativo para o planejamento turístico. Muitos já optam por não saírem do Brasil e conhecer as próprias belezas naturais, culturais e gastronômicas do seu próprio espaço. Com isso, as viagens são menos extensas, com gastos e distâncias menores e meios mais baratos de locomoção.
Esta tendência tornou-se mais proeminente após à pandemia de covid-19, que, entre os anos de 2020 e 2022, prejudicou fortemente o turismo em todo o mundo.
Durante o período da pandemia, debatiam-se maneiras de se reformular as atividades turísticas, através de cuidados com a saúde dos turistas e dos estabelecimentos turísticos (hospedagens, alimentação, transportes, comércio, atrações turísticas e outros elementos).
Com isso, diversas regiões turísticas do Rio Grande do Sul foram beneficiadas com o aumento da circulação de turistas. A Região Turística do Pampa Gaúcho é e segue sendo uma delas.
O presente artigo abordará as potencialidades da Região Turística do Pampa Gaúcho, bem como alguns desafios para um maior crescimento desta atividade turística, que promove grandes possibilidades para o desenvolvimento econômico de seus onze municípios. O tema é apresentação das potencialidades e seus desafios, visando o crescimento do turismo a importância para a região.
As hipóteses aqui apresentadas podem ser fundamentais para aplicação em políticas públicas da área turística, pois a região tem um grande espaço para que o turismo se desenvolva.
O objetivo geral é a descrição da Região Turística do Pampa Gaúcho, potencialidades e desafios para o seu desenvolvimento turístico. Especificamente, mostra as características básicas do turismo regional e o que pode ser trabalhado para aprimorar os potenciais turísticos locais.
Este trabalho justifica-se pelo fato de a Região Turística do Pampa Gaúcho estar em ascensão no cenário turístico gaúcho e nacional, podendo servir de referência para o conhecimento de suas potencialidades.
Pesquisas bibliográficas (livro, sites) e também observações de campo realizadas foram fundamentais para a construção deste trabalho, realizado de forma incondicional, por contra do forte vínculo de raízes familiares e de convivência do Autor com vários municípios da região.
No primeiro capítulo do Desenvolvimento desta pesquisa, o referencial teórico mostra bases para a aplicação do turismo na região, através de exemplos de experiências. Em seguida, apresentam-se as características geográficas, turísticas e os desafios para o crescimento turístico do Pampa Gaúcho. E por fim, sugere reflexão para o crescimento do turismo regional na Conclusão.
Desenvolvimento
A presente pesquisa é bibliográfica e abordará sobre as potencialidades apresentadas pelo turismo na Região Turística do Pampa Gaúcho, totalmente pertencente ao estado brasileiro do Rio Grande do Sul (RS). Faz-se a seguir uma pesquisa analítica e introdutória para a compreensão dos elementos necessários para o crescimento do turismo na região.
Além das fontes bibliográficas, apresentar-se-ão, ainda, dados obtidos a partir de anotações e estudos de observações do Autor, resultados das vivências e raízes familiares dele com a região.
A palavra turismo vem do inglês tourism, termo originário do francês tourisme. O vocábulo “tour” de origem francesa, deriva do latim ‘tornare’ e do grego ‘tornos’, ambos significando giro, ou seja, “volta” (WATANABE, 2012).
Cardoso (et al., 2022), mostra que o turismo tem sido estudado e analisado, nos últimos 70 anos, por diversas áreas do conhecimento científico, pois dada a sua complexidade desperta a atenção de inúmeros pesquisadores que desejam explicar, aprofundar e desenvolver teorias, além de instrumentos e métodos adequados para compreender o fenômeno turístico na contemporaneidade.
A importância crescente adquirida nos nossos dias pelo turismo como prática social e, principalmente, como prática econômica, tem contribuído para o surgimento de diversas iniciativas direcionadas para o seu desenvolvimento. Boa parte das ações está dirigida para a promoção do turismo pelos benefícios econômicos que ele pode gerar como divisas para os governos, novos investimentos privados e emprego e emprego e renda para a população em geral (RODRIGUES, 2021).
A atividade turística, assim como todas as demais atividades que trabalham basicamente com a venda de serviços, depende da hospitalidade para seu sucesso. Com a facilidade de acesso a informação e o crescimento constante da oferta de produtos e serviços, a hospitalidade tem se destacado como ponto motivador de atração. Ela se dá por meio da troca entre visitante e visitado, entre fornecedor e cliente. Assim, faz-se necessário considerar não somente o que é trocado entre ambos, mas também o local onde se dá esta troca (WATANABE, 2012).
Baseado em Marchesan (2018), existem sete grandes desafios para o turismo no Brasil: a implantação do desenvolvimento sustentável nos equipamentos turísticos; o não entendimento entre a academia (propostas) e o mercado (lucros); a integração e participação das comunidades para o desenvolvimento local do turismo; a educação e receptividade do turista; manutenção da história e cultura de um lugar em meio à globalização; a internacionalização do turismo (que requer preparo, investimentos e políticas públicas); a Internet e novas tecnologias, que facilitaram o planejamento de uma viagem para os turistas e revolucionou a forma de acesso às informações sobre pacotes de viagens, hospedagem, mapas, compra de passagens aéreas e rodoviárias.
Sobre a entrada de turistas no Brasil, Rio Grande do Sul (2022) mostra que, em 2019, mais de 92% dos turistas a entrarem no Estado eram oriundos da Argentina e do Uruguai. Boa parte dos visitantes seguiu em direção a Santa Catarina, mas aos poucos, muitos permaneciam e visitavam os atrativos no Rio Grande do Sul. Porém, a pandemia do covid-19 prejudicou e fez reduzir a movimentação turística de 250 mil turistas em janeiro de 2020 para 0, em maio do mesmo ano. Em 2023, a situação se normalizou, com um aumento significativo de turistas.
Na pesquisa da Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, consultada para este artigo, ainda não há os dados totais de Santana do Livramento, que incorporou-se recentemente à região. Ainda, segundo o levantamento, 93,14% dos turistas entram no Estado Gaúcho por via terrestre e rodoviária.
Caracterização
A proximidade e vizinhança do Rio Grande do Sul com a região do Rio da Prata (países platinos: Paraguai, Argentina e Uruguai), reforça os laços do Estado com essas regiões, que, junto com o Bioma Pampa brasileiro, forma um grande complexo sociocultural e biogeográfico, no qual se insere a Região Turística do Pampa Gaúcho, na qual será detalhada na sequência deste artigo.
Composta por catorze municípios gaúchos, a Região Turística do Pampa Gaúcho está ligada com a Apatur:
A Instância de Governança Regional (IGR) Apatur é responsável pela gestão do Turismo, numa interlocução entre os conselhos e as gestões municipais, estadual e federal. Atualmente, fazem parte da APATUR os seguintes municípios: Aceguá, Alegrete, Bagé, Caçapava do Sul, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra, Lavras do Sul, Pedras Altas, Pinheiro Machado, Rosário do Sul, Santa Margarida do Sul, Santana da Boa Vista e Sant’Ana do Livramento (APATUR, 2025).
Apatur (2024) também mostra que o crescimento do turismo na região tem o objetivo de
Articular a participação do poder público, entidades e comunidade e setor privado (empreendedores) dos municípios componentes da Região Turística do Pampa Gaúcho, promovendo o desenvolvimento do turismo planejado e integrado, alinhado com as políticas estaduais e federais do turismo e objetivando a competitividade sustentável.
Geograficamente, a região é caracterizada da seguinte forma, segundo cálculos do autor deste artigo: uma superfície de 30.228 quilômetros quadrados (km²), uma população de 320.337 habitantes, segundo o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2022, um densidade demográfica média de 8,6 habitantes por quilômetro quadrado (hab/km²).
A paisagem do Pampa Gaúcho é marcada por vastas planícies, campos abertos e coxilhas, que são colinas características da região. A vegetação predominante é composta por gramíneas e arbustos, além de capões de mato junto aos arroios (denominação regional gaúcha para córregos/riachos). criando um ambiente único e belo. A região também possui rios, como o Rio Camaquã, o Santa Maria e o Rio Negro, o mais importante do território uruguaio, que nasce em Bagé. O clima é temperado, com as quatro estações bem definidas, verões e invernos rigorosos (média anual de 18°C).
Sua economia é baseada na Agropecuária e, mais recentemente, no Turismo. Está localizada no coração do Bioma Pampa, sistema de biodiversidade que ocupa 63% do território gaúcho. E o relevo local é composto por campos de vastidão verde, com a presença de pequenos planaltos bastante trabalhados pela erosão e com altitudes que não ultrapassam 500 metros acima do nível do mar.
A partir de dados obtidos através do IBGE (2022), somados, os municípios do Pampa Gaúcho possuem quase um milhão de cabeças ovinas, 1,92 milhão de bovinos e 91,6 mil cavalos, mostrando sua pujança no setor agropecuário.
A cultura do Pampa Gaúcho é rica e diversificada. A influência indígena, espanhola e portuguesa pode ser vista nas tradições, na música, na dança e na culinária local. O tradicional churrasco gaúcho é uma iguaria imperdível, assim como o chimarrão, uma bebida típica da região. Além disso, o Pampa Gaúcho é conhecido por suas festas tradicionais, como a Semana Farroupilha, que celebra a cultura gaúcha.
A imagem do gaúcho e seu cavalo, a lida do gado e as músicas típicas, são elementos que formam a identidade cultural do gaúcho, conhecida em muitas partes do mundo, em suas festas típicas, gastronomia, vestimentas e outros.
Potenciais e desafios a serem superados pela Região Turística do Pampa Gaúcho
Cada município integrante da Região Turística do Pampa Gaúcho apresenta suas potencialidades e atrações mais conhecidas. Na lista a seguir, alguns dos exemplos do que cada um dos onze municípios do Pampa tem de melhor a oferecer em ofertas de atrações turísticas, para uma maior movimentação da cadeia produtiva do turismo local, regional e até mesmo, nacional e internacional. Ressaltando que cada municípios pode apresentar mais pontos turísticos do que os apresentados nos dados a seguir:
- Aceguá: Free-shops na Fronteira com o Uruguai e turismo rural;
- Bagé: Compras, gastronomia, turismo de eventos, turismo rural, cultural e arquitetônico, hotéis-fazendas, turismo de aventura;
- Caçapava do Sul: Geoparques, turismo de aventura, Guaritas, Pedra do Segredo, Forte Dom Pedro II, Minas do Camaquã, além da produção de azeite de oliva;
- Candiota: Vinícolas, azeite de oliva e Usina Termelétrica;
- Dom Pedrito: Caixa d’Agua, gastronomia e vinícolas;
- Hulha Negra: Festa do Colono;
- Lavras do Sul: Turismo rural, histórico, arquitetônico, de eventos, Praia do Paredão e Carnaval (de mais de 100 anos de tradição);
- Pedras Altas: Castelo de Assis Brasil;
- Pinheiro Machado: Ovinocultura e paisagens do Alto Camaquã;
- Santana da Boa Vista: Cascatas, turismo de aventura;
- Santana do Livramento: Free-shops de Rivera/UY, Fronteira da Paz, Trem do Pampa, Vinícolas, Gastronomia, Cultura e parques de lazer.
O Pampa Gaúcho oferece uma infinidade de atrativos turísticos para os visitantes explorarem. Os amantes do ecoturismo podem desfrutar de trilhas e passeios a cavalo pelas paisagens deslumbrantes da região, além de conhecer diversas estâncias e fazendas, onde os visitantes podem, além de se hospedar, vivenciar a autêntica vida rural gaúcha. Esses locais oferecem a oportunidade de participar de atividades como ordenha de vacas e montaria em cavalos. Muitas pousadas rurais da região são bem aconchegantes.
Outro destaque da região são as visitações de vinícolas, que oferecem degustações de vinhos e espumantes produzidos localmente. Os visitantes também podem explorar os museus e centros culturais das cidades, que contam a história e preservam a cultura do Pampa Gaúcho.
Por tudo isso, o potencial turístico do Pampa Gaúcho é bastante promissor e extenso. Porém, há algumas barreiras a serem superadas no que diz respeito à dificuldades como:
- Dificuldades de circulação, com estradas ainda não-pavimentadas (de chão) em acessos importantes, como a RSC-473, que liga Bagé (RS) a São Gabriel (RS), interligando-se com ERS-357, rumo a Lavras do Sul (RS);
- Problemas nos horários e linhas de ônibus;
- Dificuldades e precariedades no atendimento de saúde;
- Falta de grandes investimentos turísticos, industriais e de infraestrutura;
- Esquecimentos da região por parte do poder público e vontade política limitada por parte de alguns governantes;
- Divulgação insuficiente dos municípios e suas potencialidades;
- Falta de sinalização nas cidades e placas de acesso nas rodovias.
De acordo com o conteúdo estudado pelo autor deste trabalho, sobretudo na disciplina de Políticas Públicas de Turismo, nota-se a necessidade da implantação e mobilização para a atração de turistas. Em 2024, algumas ações já são realizadas em vários dos municípios do Região Turística do Pampa Gaúcho, através de recursos do Governo do Estado para a aplicação de sinalização turística.
Acredita-se no crescimento cada vez mais elevado do turismo nos 11 municípios da Região do Pampa Gaúcho nos próximos anos, dando origem à geração de empregos, renda e surgimento de elementos como a sustentabilidade e a atração de investimentos. O Governo do Estado mostrou, na pesquisa de 2022, que as cidades de Bagé, Caçapava do Sul e Dom Pedrito, tinham a maior parte dos profissionais envolvidos com a atividade turística na Região. Na pesquisa da Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, consultada para este artigo, ainda não há os dados totais de Santana do Livramento (RS), que incorporou-se recentemente (2023) à região.
De acordo com Apatur (2024), para o crescimento do turismo regional do Pampa, cada município deverá ter o seu Núcleo Municipal, que deverá promover a articulação do poder público, juntamente com as entidades, à comunidade e setor privado (empreendedores, trade turístico) do município para a manutenção da representatividade do município junto a Região Turística do Pampa Gaúcho e estar como parte integrante da IGR Associação Pampa Gaúcho de Turismo – APATUR, além da realização e do desenvolvimento do turismo sustentável, planejado e integrado, que seja alinhado com as políticas municipais, regionais, estaduais e federais.
Conclusão
O presente trabalho serve como reflexão e início de uma pesquisa mais ampla e uma mobilização mais ativa para que a Região Turística do Pampa Gaúcho possa se desenvolver cada vez mais. Potenciais para tal existem.
Já acontece (em 2024) um grande crescimento da estrutura turística nas cidades integrantes da região, com investimentos em sinalização e melhorias nos equipamentos turísticos.
A Apatur, órgão sediado em Bagé e que engloba onze municípios, trabalha em prol do crescimento de uma atividade que pode representar geração de renda, empregos, uso da sustentabilidade e aproveitamento das atrações que o Pampa tem a oferecer para seus visitantes.
Sabe-se que não é uma missão fácil. Mas, com muito trabalho e mobilização, Região Turística do Pampa Gaúcho pode sim ser um atraente polo turístico brasileiro, com belas paisagens e uma cultura diferenciada.
Referências
APATUR, Tradição, Cultura e Liberdade. Bagé, 2024. Disponível em: https://apaturrs.org/. Acessado em: 1° fev. 2024.
CARDOSO DA SILVA, R.; BORGES, A. L. M.; SIMONE DE ARAÚJO BEZERRA GUARDIA, M.; DA SILVA TAVEIRA, M. Turismo e Desenvolvimento Regional: diálogos entre pesquisas brasileiras. Turismo, Sociedade & Território, [S. l.], v. 4, n. 1, 2022. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/revtursoter/article/view/29378. Acesso em: Acesso em: 1° fev. 2024.
IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Pesquisa Agropecuária Municipal. Sistema IBGE de Recuperação Automática – SIDRA. IBGE, 2022. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/ppm/quadros/brasil/2022. Acesso em: 1° fev. 2024.
MARCHESAN, Paula. Os 7 maiores desafios do Turismo. Turismologia. 25 set. 2018. Disponível em: https://turismologia.com.br/2018/09/25/os-7-maiores-desafios-do-turismo-turismologia/. Acesso em: 1° fev. 2024.
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RODRIGUES, Adyr Balastreri (org.). Turismo Rural. São Paulo: Contexto, 2001.
WATANABE, Andressa Alves. Agendamento Turístico e Hospitalidade. Curitiba: Instituto Federal do Paraná, 2012.


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